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domingo, 8 de agosto de 2010

Ninguém é imbatível, mas por que não tentar fazer o melhor!?

Estava ansioso para ver a defesa do cinturão dos médios por Anderson Silva. O desafiante foi o estadunidense Chael Sonnen. No período de promoção da luta, o Chael falou bastante. Estava defendendo a hipótese de que ele era melhor que o Anderson, apesar de considerar que o último era um lutador fantástico! Ninguém parecia acreditar muito nisso...

Um parêntese: na última defesa de cinturação, contra o Damian Maia (apesar do nome, o sujeito é brasileiro, mesmo), o Anderson Silva foi bastante criticado por uma atitude anti-desportiva no ringue, onde assumiu uma postura de chacota contra o adversário. Naquela luta, o Anderson poderia ter nocauteado o Damian, mas não sei bem porquê venceu apenas por pontos e terminou ileso. Fecha parênteses!

Na madrugada desse sábado, comecei a assistir as lutas, esperando o grande momento! Particularmente, as lutas preliminares foram todas muito chatas, com exceção da luta do John Fitch, que apesar de nunca ter o visto lutar, realmente me impressionou com sua técnica e tática.

Enfim, começa a grande luta. Defesas de cinturão são disputadas em 5 rounds, em contraposição aquelas lutas normais que só possuem 3 rounds. E os dois lutadores entram na arena. Primeiro o desafiante e depois o grande Da Silva. Este entra sem mesmo olhar para o adversário, com uma postura de total desprezo. O Sonnen? Sempre de cabeça baixa... Começam a lutar. E, depois das críticas, todos esperam um Da Silva mais contundente, mostrando o porquê de estar defendendo seu cinturão desde agosto de 2006. Primeiro ataque e Sonnen mostra-se mais equlibrado, recua e leva o Da Silva para o chão. Ninguém acreditava naquilo. Vimos um Da Silva totalmente inerte, apenas se defendendo. Apesar de apanhar bastante, nenhum corte, diferentemente do Sonnen, que já tinha o rosto bastante ensanguentado! E acaba o round 1, com uma contagem de 10/8 ou 10/9 feita pelos comentaristas do SporTV. Começa o segundo round, e todos esperam uma reação, mas tudo segue como "d'antes no quartel de Abrantes": 10/9 para Sonnen.

Bom, só tinha mais o terceiro round para o Anderson dar a volta por cima, pois caso contrário só continuaria com o título por K.O. ou submissão. E não deu outra: Anderson perdeu mais uma vez! Da mesmíssima forma que os outros rounds. Pronto: só havia agora a possibilidade de finalização ou o cinturão estaria nas mãos do americano! Round 4 e o impossível aparecia na frente dos olhos de milhões de telespectadores: Anderson escorrega sozinho e cai! Era a derrota final, o maior campeão de todos os tempos estava acabado, humilhado, derrotado por sua própria arrogância na última luta, onde pisou seu adversário mais com uma atitude de déspota do que de um grande lutador! E os minutos se passavam e só víamos o Anderson submisso, se defendendo bastante dos golpes certeiros de Sonnen. Era o fim!

Round 5: Continua tudo como nos outros rounds. Esperem, o que foi isso? Uma batida (tap out)? Anderson estava agora com parte do braço e cabeça do Sonnen entre as pernas e Sonnen batia 3 vezes levemente na perna do Anderson para que parasse. O pior foi que depois que o juiz viu o que aconteceu, numa atitude de extrema anti-desportividade, o Sonnen queria continuar a luta, tentando transparecer que não tinha batido...

Não acreditava no que se tinha delineado faltando 2 minutos para o término do round 5: Anderson havia vencido com submissão, e provado que era o maior lutador de MMA de todos os tempos. Nas palavras finais, em meio a uma ensurdecedora vaia geral do publico da Califórnia, Anderson explicava que tinha lutado com uma costela quebrada nos treinos. Ele havia vencido a si mesmo, sua arrogância, sua prepotência e mais que isso sua própria inflação egóica! E deixou uma lição: ninguém é imbatível, mas precisamos nos momentos mais difíceis de uma dose de humildade e superação para tentarmos pelo menos fazer o melhor...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pai, dono de casa e, agora, ... Doutor!

Foram 3 anos e 4 meses de intenso trabalho... As conquistas? 2 prêmios acadêmicos, 2 publicações em revistas internacionais de alto impacto, 5 conferências internacionais e 1 capítulo de livro. O resultado final, aprovado com louvor e distinção por unanimidade.

Pensando bem agora, a única mudança em mim que percebo depois de tudo é que comecei a dar mais importância aos pequenos momentos em família. No meio do meu doutorado, meu filho nasceu, e nos encheu de alegrias. Minha esposa defendeu o mestrado, e fiquei super orgulhoso. Acho que todas essas experiências ensinaram-me a ver o que importa na vida, os momentos felizes com quem você ama...

Viver no exterior não é fácil, não temos a segurança de viver em nosso país, nem as facilidades do apoio da primeira família como suporte! Temos que nos virar. Fazer tarefas de casa, dividir as tarefas de casa... E ficava sempre com o arrumar a casa, lavar o banheiro, etc. Lavar o banheiro me ensinou muitas coisas: ter que fazer uma tarefa reconhecidamente chata e suja, pensar sobre as minhas próprias inseguranças, lidar com minha raiva sobre o que estava acontecendo ao meu redor... enfim, ensinou-me a ser um pouco mais humilde!

Obter um título de Ph.D. não é fácil, ainda mais numa Universidade conceituada. Mas trabalhar a humildade depois disso, é quaser sempre muito difícil. Um membro do júri perguntou-me porque muitos títulos das minhas publicações começavam por "On..." ou por "Toward...". "É sinal de humildade ou insegurança?" ele perguntou. Respondi que a tentativa de ambos: "Humildade sempre temos que ter, e segurança, quase nunca temos, no meio acadêmico". Não sei se posso me considerar uma pessoa humilde, mas com certeza pretendo ser um dia, e foi lavando o banheiro e varrendo a casa que aprendi a dar valor as minhas conquistas e sempre valorizar e olhar nos olhos aqueles profissionais da Universidade que quase sempre só sentimos falta quando entram em greve... os profissionais da limpeza! Dar "bom dia", olhando nos olhos dele, pode fazer uma grande diferença em suas vidas!

Enfim, terminei meu processo! E aprendi bem mais que o meu doutoramento propôs, aprendi (e estou aprendendo) a ver que títulos não definem ninguém. As pessoas são definidas pelo que está em seus corações, pelo caráter! Aprendi um pouco a ser pai, a ser dono de casa... Quanto a ser doutor!? Creio que minha jornada apenas começou...

quarta-feira, 3 de março de 2010

Nas entrelinhas

O que mais gosto das crianças é a sinceridade! Elas não pensam muito para dizer o que pensam. À medida que crescem aprendem que não podem e não devem dizer a verdade, sob pena de problemas sociais. Sim, sociais, pois ninguém consegue falar a verdade na lata, sem ter uma consequência na sociedade em que vivemos.

E assim, começamos a perceber que em quase todo o discurso de um adulto há um outro discurso entre as linhas. Quando alguns dizem branco, querem na realidade dizer azul, quando uns dizem amo, querem dizer na realidade odeio... e assim por diante!

O problema todo é entendermos algumas entrelinhas até sentirmo-nos ofendidos e indignados com certos comentários! O grande ponto da questão é portanto saber que sempre há discursos nas entrelinhas, ou, quem sabe?, antes e depois das linhas...

sábado, 2 de janeiro de 2010

Uma pitada de palpite, por favor!

Imaginemos a seguinte situação: 20 pessoas da mesma família tentando decidir aonde jantar! A princípio, isto parece algo simples. Mas, na verdade, sabemos que quase sempre esta é uma tarefa inglória, principalmente quando essas 20 pessoas costumam conviver pessoalmente!

É engraçado como a dinâmica da maioria das famílias envolve uma série de questões! Quando convivemos com pessoas há muito tempo, essas questões se multiplicam, e aquela velha máxima "dê dinheiro, mas não dê intimidade" parece não resolver neste caso...

Temos que conviver com nossos velhos palpiteiros conhecidos, e nosso queridos familiares sentem-se no direito, e até no dever, de "palpitar". O palpite é uma coisa que flui das pessoas. Há aqueles que vêem disfarçados com frases rodeantes no início, há aqueles outros que são mais diretos e não disfarçam a arrogância de certas pessoas em fornecer suas opiniões, há aqueles que sempre começam com sentenças do tipo: "não quero me intrometer, mas..." ou "se eu fosse você..." ou "conheço um caso que..."; enfim disfarces para dizer o que pensa, rezando para que você concorde e até mude de opinião!

Não importa o estilo, família gosta de palpitar. Quando então se trata do destino dos netinhos, então... Esses são o diamante de toda a família! É assunto para todos os almoços de domingo, quando cada um lembra dos "calsos" para demonstrar seus pontos de vistas.

É interessante como às vezes trocamos favores por palpites. Explico-me. Lembra quando nossos pais tinham que resolver algo, ou mesmo decidiram ir ao cinema e deixa seus filhos com os avós? Pronto, tai um favor pedido, e em troca um palpite de brinde. "Minha(o) filha(o), com você a coisa foi diferente. Você devia fazer isso ou aquilo..."

Enfim, o palpite é condição necessária e suficiente para se coexistir em família. O mais interessante de tudo é estar aberto para ouvir e perceber o que se está por trás dele. Não devemos brigar ou contrariar. Devemos perceber que aos avós cabem a tarefa de "deseducar", mas a nós cabe usar essa deseducação a nosso favor, ou seja, sabendo a hora certa de intervir e orientar como achamos que deve ser! O que acredito que precisamos evitar é deixar que nosso comodismo nos leve a situações onde perdemos o leme da educação de nossos filhos. Isso sim é um caminho sem volta!

sábado, 31 de outubro de 2009

Ilusões perigosas

Conversando com um colega que não está passando uma boa fase, comecei a prestar atenção em seu discurso. Sim, discurso! Aquelas pessoas que não se entregam a tristeza pública, tendem a arranjar formas racionais de justificar as más fases. Acho que isso é melhor que dizer pra todo mundo que você está na fossa.

Mas voltando... o tal discurso do meu colega parecia uma forma de justificar a sua incompetência. E digo incompetência, sem ofensa alguma, uma vez que acho que se víssemos mais que somos incompetentes em várias coisas, viveríamos mais felizes! Enfim, o colega tentava arranjar 3 ou 4 explicações para demonstrar que tomou algumas decisões erradas no meio de caminho. Como conheço mais ou menos a sua história, percebi logo que estava tentando se convencer que apesar de ser muito bom em algumas áreas, foi "injustiçado" pelo "sistema".

O interessante dessa história toda é que anda, vira e mexe, usamos essas estratégias para nos sentirmos melhores! Não sei, acho que nosso sistema nervoso não suportaria tamanha dor de observar o quanto somos incompetentes. Acho que isso é típico das pessoas que se cobram muito. Naturalmente me incluo nessa categoria. E obviamente não podemos entregar os pontos a qualquer um...

O interessante dessa história toda é que parece que vivemos num espiral de ilusões, tentando nos achar melhores que outros quando obtemos sucesso, e piores quando fracassamos! Ilusões que nos levam sempre a buscar uma referência externa para o nosso mundo, onde não suportamos ser julgados, mas a todo momento precisamos julgar para nos percebermos e nos enxergarmos melhor. Ilusões que nos prendem a consciências adormecidas de nós mesmos! Enfim, ilusões perigosas pra nós próprios...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Papo de poeta

Enquanto crescemos fisicamente (desde bebê até a idade adulta) e durante o nosso processo de aprendizagem (principalmente na primeira infância), parece que cada um vai criando estratégias próprias para reter o conhecimento! Uns demoram mais, como se aquele determinado conhecimento tivesse que ser esmiuçado a tantas partes que fosse necessário passar mais e mais tempo a ver cada ângulo; outros são mais rápidos, como se soubesse de antemão que voltaria aquela situação mais uma vez na vida e os ângulo se abririam para eles.

Enfim, cada um tem um aspecto singular de perceber a vida, uns mais superficiais, outros mais perspicazes... O interessante nessa história é que quando nos tornamos adultos, algumas coisas já nos parecem intrínsecas. Com o passar do tempo, mais e mais prestamos atenção menos e menos. E a vida parece começar a perder a graça! Parece que precisamos, nessa altura, de mais e mais estímulos externos, enquanto menos e menos sentimos o conforto de caminhar com passos seguros.

Alguns não param para pensar nisso, já que suscitar dúvidas é fazer brandir as bases de uma pseudo-segurança. Mas como dizia Jung: "Tudo aquilo que não enfrentamos em vida acaba se tornando o nosso destino"! Há aqueles outros que preferem viver numa roda de auto-engano, imaginando que é mais fácil acreditar que um dia tudo será diferente (nem que seja por vias Extra-Terrestres!). Há aqueles ainda que se enlamam em considerações filosóficas tão pessimistas que terminam se tornando escravo de seu próprio estilo de vida! Por fim, ainda existem pessoas que aparentemente vivem com um sorriso plantado no rosto como se tudo tivesse bem. Nenhum desses tipos são ilibados da roda do progresso. Enquanto não nos dermos conta do que somos, sempre seremos empurrados em algum instante a pensarmos sobre a VIDA.

Acho que é aqui onde quero chegar. Por que precisamos criar artifícios para viver? Que raio de "Matrix" é essa que vivemos, que para nos sentirmos minimamente bem, precisamos continuar a fugir de nós mesmos? Acho que essas perguntas estão dentro do verniz social em que vivemos! Não devemos ser sinceros, pois as pessoas podem não ter capacidade para compreender nossa sinceridade. E não o sendo, acabamos também por não sermos sinceros com nós mesmos... Assim o círculo de enganos e auto-enganos vão se formando, quer dizer acho que mais seriam espirais!

Acho que essa conversa toda é meio "non-sense", ou talvez "semi-sense"? Para alguns devem fazer sentido, para outros deve ser apenas "papo de poeta", mas o que parece ser concreto nisso tudo é que cada vez mais vejo gente fugindo da sua própria realidade: Criam famílias mas as põem de lado pelo trabalho; usam suas inteligências para acumular bens e poder, mas não podem desfrutar dos bens e do poder apenas o utilizam em benefício próprio; criam amizades superficiais que parecem degenerar-se a um mínimo abalo no status social, e por ai vai... Pode ser "papo de poeta" mas tudo tem um preço e o destino parece criar condições para nos mostrar quando não nos enfretamos...

sábado, 11 de abril de 2009

A grande bandida

Há certas coisas na vida que nos levam para baixo. Empurram-nos ladeira abaixo, que às vezes é difícil levantar... mas não há nada pior, ao meu ver, que aquela que destrói lares, devasta nossa saúde mental, tornando-nos medíocres! A grande bandida tráz uma vaga sensação de segurança no início! Às vezes, um programa de TV que assistimos em um dia e outro e outro... Depois é o acordar naquele horário pela manhã e pegar aquele caminho conhecido para o trabalho! Em seguida, começamos a olhar para as pessoas sempre da mesma maneira e até mesmo nossos familiares nos tornam tão "familiares" que esquecemos até de ver o mais óbvio...

Com o tempo, já nem conseguimos ver o que está em nossa frente; como uma "cegueira branca"! E mais e mais, nossa inteligência vai "encurtando". É tão penoso pensar, que preferimos procurar quem o faça!

Pois é, meu amigo! Essa grande bandida é a ROTINA! Aquela que nos leva a uma inércia tão grande que todos os detalhes nos passam pela frente sem serem percebidos. E dia a dia, faz-nos pensar que vivemos num reino seguro onde tudo é controlado, mas que apenas uma poeirazinha destrói-nos a paz. A grande inimiga da criatividade e da auto-estima... Sim, porque essa última só aparece na rotina como uma falsa sensação de segurança!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ser ou não ser, eis a questão...

Parece que o ser humano é dado a uma divisão. Acho que é porque somos seres que já nascemos divididos desde o início dos tempos. Se acreditamos na Bíblia, por exemplo, podemos ver que o próprios Adão perde uma costela para poder gerar a Eva. Em outras palavras, é dividido para poder criar sua forma feminina. E é a partir dai que parece que nós, os homens, vivemos em busca de nossa costela amada.

Mas vamos ao que interessa! Nossas sociedades ocidentais parece nos impelir a tomar partido, ou pelo menos, a fazermos partes de um partido. "Parte", "parte-ido", palavras que nos perseguem em toda a nossa vida; se vamos a um psicólogo, este deve seguir a linha freudiana ou junguiana ou lacaniana ou comportamentalista, e ai daquele que se aventure em várias dessas áreas, vai ser "mal-dito" em toda a sua carreira. Na engenharia, na minha área por exemplo de visão computacional, os que seguem a abordagem Fuzzy falam mal dos que seguem a abordagem bayesiana ou markoviana, e vice-versa; os que decidem calcular tudo por geometria falam mal dos que resolvem usar um pouco de "reasoning", enquanto que estes últimos acreditam que os primeiros são tão obcecados por precisão que não percebem que os cálculos que o ser humano fazem são imprecisos e dão certo!

Se passearmos um pouco nas religiões, isso fica muito mais complicado. Poucos são aqueles que acreditam ou mesmo toleram intersecções em termos religiosos. Espíritas não podem participar de missas católicas; seria uma incoerência para um testemunhas de jeová participar de um ritual das igrejas africanas... Ufa! Que cansaço dar só em imaginar que quanto mais o ser humano se torna cindido, mais parece que ele precisa seguir um caminho único, ser uma só pessoa, conformada em um padrão onde outras pessoas sugerem ser o "certo".

Devemos "ser" assim, não "sendo" assado. Algumas pessoas não conseguem enxergar que as coisas se sobrepõem e interceptam e mais ainda: somos seres que precisamos nos realizar através de muitos caminhos, porque não conseguimos ainda encontrar aquele "caminho do meio" que tanto nos sugere o nosso amigo Jung. O que não compreendo (se alguém souber, por favor explique-me) é porquê algumas pessoas precisam impor tanto o que devemos ser ou não. Parece que no decorrer da vida essas pessoas interpretam suas frustrações ou conquistas como se só houvesse um caminho a seguir!

Por mais lógico que pareça ser um caminho, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia pode compreender" para que possamos imaginar que devemos "to rule the world" com nossas convicções sobre determinadas "verdades".

Não é isso que quero para meu filho, e peço que seja castigado se cometer este pecado com ele. Quero que ele tenha um pensamento mais liberto possível e se for necessário que ele tenha que "matar a Deus", que seja feito para que ele possa se realizar em seu caminho, mas desejo que ele nunca esqueça de ser uma coisa: ético, responsável para com a vida e que tenha caráter em suas determinações. Como sei que a vida nos prega tantas peças, ainda assim o perdoarei se falhar em algum momento, mas será difícil imaginar-me o compreendendo, neste exato momento, caso ele desista de continuar tentando...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Aprendendo a desejar

É engraçado como a força das tradições durante centenas de anos consolidam sentimentos e razões que passamos a cultivar ano após ano. O Natal é uma delas. Na verdade, o Natal é a comemoração do nascimento de um Grande Homem que NÃO nasceu, de fato, no dia 25 de dezembro. Alguns estudiosos acreditam, entretanto, após o estudo de algumas dicas dados em textos apócrifos ou na própria Bíblia, que Jesus nasceu entre março e abril do ano 7 ANTES DE CRISTO. Engraçado que essas tradições incluem o Papai Noel e a troca de presentes, símbolos que parecem não estarem correlacionados com o nascimento do Grande Homem, mas que são facilmente explicados com as ocorrências históricas relacionadas com esta época.

Historicismos à parte, parece que o que vemos é uma grande mudança na personalidade das pessoas. Vemos as pessoas mais sensíveis e receptivas a falar com as outras. Também podemos notar que queremos sempre desejar bons sentimentos aos nossos próximos, torcendo para que seus desejos sejam atendidos no ano vindouro. E acho que é ai que mora o perigo. Sim, porque o que vemos, parecem ser desejos bem egoístas sendo realizados a cada ano. Porque parece que quando fazemos os votos de que os desejos de nossos próximos sejam realizados, esquecemos que muitos deles podem interferir na vida dos outros e, se muitos são bons para uns, outros são perniciosos para outros.

O que mais acalenta é que, parece também que, a cada ano, melhoramos mais os nossos desejos. Aprendemos mais a desejar, característica típica do ser humano. Um desejo, ao meu ver, não deve ser direcionado ao ter mais, mas ao ser melhor. E isso, nós seres humanos, precisamos aprender todos os anos. Sim, pois desejamos durante os 365 dias do ano, mas só no Natal pensamos sobre estes desejos. Acho que esta época do ano realmente facilita o nosso lado mais sensível, pois é como se estivéssemos abertos a recomeçar, a renovar nossas convicções e expectativas para um ano que está perto de chegar.

Em outras palavras, acho que o desejo da satisfação de nossas "necessidades" deve recair num crivo mais consistente, não significando criarmos uma cama de Procusto para nossas aspirações egoístas, mas imaginar o que realmente importa para nós em termos de crescimento espiritual e o que podemos fazer pelos outros. Difícil, mas a cada ano parece que aprendemos melhor a desejar essas coisas, nem que seja à base do sofrimento...

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Temos sempre razão

Nunca uma frase foi tão bem dita quanto a de Saramago: "o animal faz melhor uso do instinto que o homem da razão". É uma frase que se auto-explica, auto-completa e não faz círculos tergiversantes. Podemos aplicar esta idéia a qualquer área em que o ser humano esteja envolvido.

Algum filósofo já disse que o homem é um ser político! Não porque nós temos um potencial para sermos vereadores ou deputados, mas porque o homem é um ser social. Precisamos conviver em sociedade e isso parece despertar uma séria de contextos que nos devem influenciar sermos "vindos de polis", "ta politika", "vindos de cidades", que é em última instância a origem da palavra política. Ou seja, devemos saber viver em aglomerados, com direitos e deveres. E é ai que parece nascer o maior problema de nós seres humanos: os direitos e deveres!

Quase sempre pensamos ter mais direitos que deveres. São as nossas conveniências mais íntimas que nos incita a reclamar mais um que o outro. É impressionante como uma vista rápida de olhos em algumas situações, vemos como distorcemos as circunstâncias ao nosso bel prazer, refugiando-nos em nossas carências e mascarando-nos de juízes da vida: este é o MEU DIREITO, mas o SEU DEVER!

Conveniências servem pra isso, pra nos ajudar achar justificativas para nossas ações mais estúpidas. Ficamos cegos e até mesmo nos damos o direito da contradição. Sim, porque não parece ser possível justificar uma conveniência sem uma contradição em determinado tempo. E vamos caminhando, sem razão aparente... digo aparente, pois a razão é muito simples, apesar de sermos uma animal político, vivemos em profunda solidão. E mesmo aqueles que vivem rodeados de pessoas, comumente vivem mimetismos superficiais determinados pelo grupo. São as escolhas de cada um...

Parcialmente sãos, parcialmente loucos, vamos caminhando para uma expectativa espetacular de que um dia seres de outros planetas invada a terra e nos salve, e pouco a pouco vamos esquecendo os nossos deveres. Deveres de sermos honestos para com nós mesmos, de sermos apaixonados pelo que fazemos independente de quaisquer circunstâncias, de seguirmos uma razão para além de algumas convenções sociais que nos impelem a comportamentos esquálidos de amor próprio.

Enfim, mas não por fim, razão está provado que temos ou que pelo menos existe, porém parece que fazemos uso dela de uma forma bastante cega...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Supermercado das emoções

Rótulos servem comumente para estamparem características e nomes de produtos. Todo produto tem um rótulo, pois se assim não o fosse, algumas coisas seriam difíceis de caracterizar, como por exemplo, aspargos. Imagine se toda embalagem de aspargos viesse sem um rótulo, creio que ninguém compraria isso! Visualmente, aspargos são totalmente sem graça, meio esbranquiçado, meio esverdeado, parecem lembrar uma mini cana-de-açúcar meio verde, meio branca.

Enfim, rótulos são necessários! Acho que partiu dai a necessidade do ser humano de rotular tudo: louras são burras, homens são canalhas (quando se tratam de mulheres), fulano é isso, sicrano é aquilo! O bom do rótulo é que depois que o usamos, não precisamos mais pensar sobre aquilo: o produto está caracterizado. Não precisamos ter muito trabalho para definir que um aspargo é mesmo um aspargo, pois alguém já rotulou aquilo de um aspargo!

Rotular é uma coisa que até nos ajuda quando nos falta palavras: "isso é muito esquisito". Tudo que é "esquisito" parece algo extra-terrestre, mas enfim teimamos em utilizar esta palavra pois é mais conveniente. Quando encerramos um determinado pensamento, estampamos um rótulo, pois aquela coisa parece ter uma "cara" pra gente... E prosseguimos com nossas experiências. Mais adiante, vemos algo mais ou menos parecido com algum rótulo do passado e buscamos em nosso banco de dados, ou seria banco de rótulos?, para ver qual aquela que mais se adequa a pessoa ou situação a nossa frente. É verdade que isso parece nos poupar imenso tempo em pensamentos intrincados sobre determinada coisa. Outras vezes, para disfarçarmos, passamos a usar rótulos mais disfarçados sob a égide do cinismo, para não nos fazermos notar. Mas quase sempre o rótulo parece aquele pensamento acostumado, envelhecido pelo tempo, guardado num baú, onde rapidamente podemos buscá-lo para nos defender dos terríveis "inimigos externos".

O engraçado dessa história toda é que rotulando ou sendo rotulado, a humanidade caminha a passos largos para uma superficialidade que abrange mais e mais a sua própria frustração. E isso não é uma conclusão, porque se fosse, seria um rótulo e não gostaria de terminá-lo assim...

sábado, 22 de novembro de 2008

O vazio e as cores

Quando me elogiam, metade de mim é vaidade, outra metade é consciência! Elogiar-me não deixa de ser um ato prazeroso no momento que se inícia um elogio, porém parece se transformar em algo inútil em seguida, quando percebo que muitas vezes (acho que 99.9999% das vezes) este elogio tem outra finalidade!

Minha esposa, por exemplo, me elogia porque gosta de mim e quer me ver bem, mesmo que algumas vezes não consiga apreender o porquê daquele fato que motivou o elogio! Meus alunos me elogiam quase sempre porque precisam criar uma empatia que os ajudem em caso de necessidade (aquele 1 décimo de aproximação na nota final para passar na disciplina!) Consciente ou inconscientemente estes objetivos parecem ser reconhecidos por mim e por isso repito: metade de mim se envaidece e a outra metade sabe do que está acontecendo!

Já meus inimigos, não! Eles quase nunca me elogiam! Sempre procuram uma falha em mim, procuram um ponto fraco onde possam me vencer em seu modelos mentais perturbadores ou conflituosos! É por isso que devo muito a eles! Sem eles, minha existência seria uma "sêca", como se vivesse eternamente convivendo como uma mesma melodia unitônica! Não existiria evolução de personalidade, nem vitórias sobre os lados sombrios de minha psique!

Dizem que os inimigos são nossos espelhos! Creio que são mais que isso, são nossos melhores reflexos, aqueles cujas cores "saramaguianas" estão desbotadas dentro de nossos quadros psíquicos e que com o menor contacto com eles, tornam-se brilhantes e irradiantes, mostrando-nos o que devemos realmente enxergar em nós! Pena que nem sempre gostamos dessas cores, pois não combinam com as vestes de nossas máscaras, que insistem em nos enganar pois é conveniente aos nossos interesses!

... aprendi que devo agradecer aos meus inimigos, perdoá-los sempre, nem sempre entrar diretamente em contato, mas sempre procurar vislumbrar qual a cor que eles podem me mostrar naquele momento. Qual cor deve ter mais brilho? E quando não considerar mais ninguém meu inimigo, enfim terei alcançado a liberdade eterna, onde minhas próprias cores serão realçadas agora somente pela minha vontade! Acho que isso, afinal, é o "vazio" tão almejado pelos orientais...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Idealizando o diferente

Estamos constantemente sendo bombardeados por informações. A cada dia, os jornais noticiam que um padrão novo deve ser seguido: uma hora deve se comer isso, outra não se pode comer aquilo! Parecemos bois conduzidos por um grande pastor.

Vivemos dia a dia numa enxurrada de novos modismos e tendências as quais, quando seguimos, nos faz parecer integrados com a massa de pessoas a nossa volta. Não seguir a massa é penoso demais! Temos que abrir mão de muitas coisas, dentre elas o nosso processo de individuação!

Ser diferente é incômodo! Não só para os outros, mas muito também para nós mesmos... Não me recordo de uma pessoa que tenha percebido isso que tenha tido uma vida tranquila... Terminaram sempre ou mortos pelos homens ou mortos por eles mesmos através de drogas ou bebida! O fato é que aquele que se diferencia da "massa" sempre paga um alto preço...

Não, esse ser diferenciado definitivamente não sou eu. Não faço parte do time dos diferenciados e conheço poucos que o são. Não preciso usar nem meia mão para contar. Para ser diferenciado é preciso compreender determinadas coisas que estão além daquilo que aparentamos ser. Ser diferenciado é quase um caminho para a loucura... é talvez entender que não precisamos agradar a ninguém concordando com cada ponto de vista... Por que afinal estamos vez por outra concordando por conveniência!

... e não é só isso! Cada vez mais somos menos sinceros! Mentimos a todo instante para contornar o que é penoso para a gente. Criamos jogos de convivência porque é penoso para as pessoas sermos sinceras umas com as outras! Como diz Oscal Wilde: "...para sermos populares é indispensável sermos medíocres!"

É incrível como numa conversa envolvendo muitas pessoas, a concordância da maioria pode abafar boas idéias! Temos vergonha de defender nossas idéias, porque argumentar é sinônimo de polêmica. Quem argumenta demais é polêmico! As pessoas "diplomáticas" concordam sempre, mesmo que discordem. Acho que de fato algumas são até inteligentes, pois sabem onde querem chegar com isso... Mas, sinceramente? A maioria faz isso por puro comodismo...

Parece que vivemos aquela sociedade pintada por Aldous Huxley em "Brave New World", há quase 80 anos atrás. Temos que parecer integrados, sermos iguais em cada casta social que vivemos. Quebrar paradigmas verdadeiramente não é a palavra de ordem! Enquanto isso, quem dita as regras do novos paradigmas é quem sae na frente e nos conduz, determinando a maneira de pensar da maioria!

O fato é que ser diferente é ser autêntico e dá trabalho, muito trabalho...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Êxtase

A sensação de êxtase é única. Ao mesmo tempo em que sentimos uma leveza sem igual, há também uma angústia por não achar que seja merecedor desta sensação de outro mundo!

Já ouvi dizer uma vez: "a felicidade não é deste mundo!", e concordo com isto... Muitas são as vicissitudes que devemos passar para aprendermos a ser melhores! E isto nos impede de enxergar que o nosso sofrimento parte do nosso próprio orgulho e falta de auto-conhecimento...

Mas, a sensação de êxtase é única! Não sei quantas vezes experimentei esta plenitude, mas parece ser de "outro mundo". Nós ainda não estamos preparados para experimentar a felicidade plena ainda por aqui, mas uma "vezinha" parece nos dar o gosto do quanto podemos nos sentir melhor se evoluíssemos mais nossos sentimentos mais íntimos... Decididamente, temos que deixar de lado estas atitudes hipócritas de quem aponta os erros dos outros e se esquece de olhar os próprios.

Para Dionísio, êxtase é uma sensação de "inspiração e entusiasmo", acrescentaria "paz". Mas sei que é apenas um gostinho... Nossos sentidos humanos não nos permitem perpetuar ainda esta sensação...

Que pena!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O não fazer sentido

Tudo na ciência tem que fazer sentido! Esperamos que isso ou aquilo tenha algum sentido e buscamos mesmo por isso.

Quando nos deparamos com um problema que não faz sentido ou aparentemente não nos leva a parte alguma, costumamos utilizar a palavra "estranho" e seguimos nosso caminho... Estranho é o que mais ouço de meus colegas quando algo "não faz sentido" para eles! Eu mesmo já usei muito esta palavra... Depois comecei a perceber que este é um ótimo recurso para escondermos nossa ignorância e comodismo para compreender o que está na nossa frente. Parei de usá-la! Agora, simplesmente, resolvi que não utilizo mais ela. Quando não compreendo algo, simplesmente perco o sono e vejo como é penoso e trabalhoso compreender seriamente algo novo!

Por mais que nos esforcemos para nos contentarmos com algum conhecimento de alguma coisa, parece que mais nos enganamos, pois ainda falta muito para compreender! Tenho descoberto que, por outro lado, a melhor forma de se sentir menos insatisfeito com algo é reconhecer que aquilo não faz sentido!

E realmente nada parece fazer sentido visto de muito perto! Porque para fazer sentido precisaríamos ser oniscientes e enxergar todas as relações de uma determinada questão antes, durante e depois que ela acontece. E isto é obviamente impossível! O fazer sentido, portanto, é algo que utilizamos para parar de pensar sobre uma determinada questão; é o ser "estranho" que carimbamos e nos voltamos para outras questões que mais nos interessam, porque caso contrário poderíamos entrar numa reflexão sem fim e perder o sono!

O não fazer sentido é necessário e a medida de até onde devemos utilizá-lo para parar de refletir é diretamente proporcional a nossa força mental e inversamente proporcional ao nosso grau de auto-engano! Sendo totalmente sinceros, a busca por uma resposta coerente não terminaria nunca, pois a satisfação de obter uma resposta seria sempre frustrada à medida que visualizássemos outro ângulo da questão!

O não fazer sentido, portanto, pode ser apenas um começo para uma reflexão maior ou uma dica para seguirmos outro caminho ou, até mesmo, quando somos mais comodistas, uma forma de pararmos de pensar sobre um problema. Em quaisquer um dos casos, o que determina a nossa parada é o grau de sinceridade para com nós próprios!

Faz sentido?

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Paixão e genialidade

Acabei de assistir a uma palestra sobre Mozart! Rapaz interessante, este Amadeus Mozart. Conseguia compor ao realizar tarefas banais, como andar de carruagem ou ensinar piano. Parecia que seu gênio criativo estava em constante ebulição! Viveu apenas 38 anos para fazer história...

Será que se vivesse nos dias atuais, seria assim também? É certo que viveria mais, pois poderia frequentar academia, comer comidas mais selecionadas e até dispor de medicina mais especializada... Ai fico pensando: será que a genialidade iria aflorar? Ainda mais se tivesse internet em casa, quase certo que não poderia colocar suas músicas em seu site pois os direitos autorais seriam violados! E se o próprio Requiem dizem que foi roubado pelo seu arqui rival, imagina o que aconteceria na internet... Nem saberíamos quem seria o Amadeus!

Definitivamente, não. Ele não seria um gênio! Estaria demais envolvido em distrações, e não haveria a atmosfera apaixonante da época - o que falta em nosso tempo! As pessoas só se apaixonam pelas próprias projeções delas mesmas em seus amantes. Paixão por um ideal ou pensamento, em nossos dias, parece ser coisa rara e quase sempre dura o tempo suficiente para se ganhar dinheiro com uma idéia. Acho que o gênio apaixonante e apaixonado de Mozart, Beethoven, Shubert teve uma época e lugares certos! Hoje, não há espaço para essas coisas...

Vivemos numa era dos descartáveis! Numa época que tudo é manipulado, desde os transgênicos até os "realities show" das TVs. Tudo dura o tempo suficiente para estar na moda!

Acho que a condição de gênio é mais que ser meramente muito inteligente em uma determinada área, é estar de certa forma consciente da sua paixão e o que ela causa para a humanidade... Longe de mim pensar que sou um gênio, sou consciente demais dos meus erros para isso! A genialidade definitivamente não é privilégio de uma criança que com 3 anos decora todos os livros pela frente ou consegue memorizar a tabuada até 9834 vezes 13807! A genialidade tem que expressar algo mais, uma verdade quase absoluta na cabeça do gênio e que ninguém sabe explicar ou fazer igual, mas sabe que é melodia para os ouvidos, fulgor para os olhos e originalidade para as mentes! Tem que ter paixão... Aquele acreditar naquela verdade mais profunda de sua mente, e que vai além da mediocridade do dia-a-dia! Jung já dizia que se fosse expressar tudo que lhe ia na cabeça, quantas asneiras sairiam... É uma pena que hoje em dia só conseguimos enxergar o banal, o imediato.

Até culturalmente, as sociedades mundiais têm se igualado em meros sacos plásticos, onde mudam-se os nomes, mas a essência é a mesma: falta de paixão!

domingo, 12 de outubro de 2008

O indivíduo e a sociedade

Quando tinha 16 anos, comecei a comprar nas bancas a série "Os Pensadores". O primeiro pensador da série era o psicólogo Carl Gustav Jung. Nesta biografia inicial, uma idéia expressa por Jung me chamou muita atenção: "o indivíduo possui duas personalidades: uma individual e outra coletiva!".

Senti uma sensação estranha com esta frase: parecia que fazia sentido para mim, mas não conseguia expressar uma conclusão absoluta ou, nem mesmo, relativa sobre o seu significado maior. Resolvi investigar... Fui a biblioteca de um curso de alemão, inscrevi-me e resolvi pegar todos os livros de Jung possíveis.

Quase 20 anos depois, um monte de experiências e uns 10 livros deste autor, entendo melhor o que ele quis dizer... Parece claro que o homem possui uma personalidade coletiva. Quem nunca participou de um evento com muita gente? Parece que nos transformamos. Quando se é um adolescente, por exemplo, ir a um jogo de futebol em que seu time participa, isto parece mais claro: gritamos, choramos, brigamos... Como se aquilo fizesse parte da gente... como se, ao perder, ou ganhar, nós próprios perdemos ou ganhamos, também! Aquele torcedor parece encetar uma faceta da gente que não condiz com aquele outro ser sozinho em seu quarto!

E quando estamos no colégio? Garotas, amigos! Começamos a namorar. Parece estranho, termos uma atitude com uma namorada, diferente de quando estamos com os amigos. Com elas, precisamos parecer mais maduros, com eles precisamos é parecer engraçados!

Lembro-me de um programa que passava na tv: "Anos Incríveis". Era a história de Kevin Arnold e suas experiências. Esta série foi apresentada por mais de 10 anos com o mesmo ator e podíamos ver o Kevin desde os seus 10 anos até o seu casamento e filhos! O incrível desta série foi o auto descobrimento do Kevin. A cada experiência, Kevin se deparava com a sua individualidade e sua personalidade coletiva, a qual ele só se questionava ao final de cada episódio.

É óbvio que Jung vai muito além disso tudo. Quando afirmava que o homem tinha uma personalidade coletiva, referia-se a arquétipos, mitos coletivos e muito mais. Isto foge aqui explicar. Não sou psicólogo, apenas um aprendiz de observador do mundo à minha volta (com meus viezes e preconceitos)... Porém, o que mais me intrigava, era: como uma pessoa poderia ser coletivamente tão diferente do que quando estava sozinho? Por que apresentamos esta dissonância tão grande em nosso ser? E na maioria das vezes nem nos damos conta disso...

Quando começamos a amadurecer, isso parece que se torna especialmente crítico! As mentiras brancas que os adolescentes usavam para se livrar de problemas com os pais, parecem se transformar em mentirar um pouco mais pardas... E manter isso é importante para a sociedade. Vejamos, por exemplo, aquele programa: "O Momento da Verdade" (ou The Moment of Truth, nos EUA). Ganhar dinheiro sendo verdadeiros, especialmente muito dinheiro, parece o verdadeiro objetivo do jogo... Às perguntas mais picantes, ouvimos o auditório vaiar ou aquele longo e profundo som: "oh". Como se nos regojizássemos daquilo que foi dito e nunca tivéssemos passado por tal situação. A verdade é que as peguntas são baseadas em situações coletivas. E mesmo antes da era da informação (sim, aquela época em que nossos pais diziam: "isso não acontecia em meu tempo"), podíamos observar situações como traições, roubos, trapaças e muitas coisitas mais. "Atire a primeira pedra quem nunca pecou!"

Pois é, Sócrates foi condenado à morte por dizer a verdade! Será que não seríamos também!? O fato é parece que não dizemos a verdade porque não queremos. Não dizemos a verdade porque não estávamos conscientes dos nossos atos quando fomos assomados por nossa espírito coletivo... Como justificar a nossa eterna estupidez e insensatez? Se ao menos tivéssemos uma idéia que norteasse nossos atos no momento em que "pecamos", seria mais fácil! E tem sempre a nossa querida instituição religiosa para lembrar que somos pecadores! Seja lá o que tenhamos feito, somos pecadores! Ela só esquece de dizer que o pior dos pecados mora no íntimo de cada um e não fora! "O fato de fazermos sacrifícios para fazer o bem ou o mal não altera em nada o valor definitivo dos nossos atos", diz Nietzsche.

Quando o ser humano se tornar mais consciente de que "já aprendemos a falar sobre sexo, o problema agora é falar sobre poder!", como dizia um velho amigo psicólogo, encontraríamos nossa paz! De qualquer forma, isto é um assunto para outro post!