quarta-feira, 3 de março de 2010

Nas entrelinhas

O que mais gosto das crianças é a sinceridade! Elas não pensam muito para dizer o que pensam. À medida que crescem aprendem que não podem e não devem dizer a verdade, sob pena de problemas sociais. Sim, sociais, pois ninguém consegue falar a verdade na lata, sem ter uma consequência na sociedade em que vivemos.

E assim, começamos a perceber que em quase todo o discurso de um adulto há um outro discurso entre as linhas. Quando alguns dizem branco, querem na realidade dizer azul, quando uns dizem amo, querem dizer na realidade odeio... e assim por diante!

O problema todo é entendermos algumas entrelinhas até sentirmo-nos ofendidos e indignados com certos comentários! O grande ponto da questão é portanto saber que sempre há discursos nas entrelinhas, ou, quem sabe?, antes e depois das linhas...

sábado, 2 de janeiro de 2010

Uma pitada de palpite, por favor!

Imaginemos a seguinte situação: 20 pessoas da mesma família tentando decidir aonde jantar! A princípio, isto parece algo simples. Mas, na verdade, sabemos que quase sempre esta é uma tarefa inglória, principalmente quando essas 20 pessoas costumam conviver pessoalmente!

É engraçado como a dinâmica da maioria das famílias envolve uma série de questões! Quando convivemos com pessoas há muito tempo, essas questões se multiplicam, e aquela velha máxima "dê dinheiro, mas não dê intimidade" parece não resolver neste caso...

Temos que conviver com nossos velhos palpiteiros conhecidos, e nosso queridos familiares sentem-se no direito, e até no dever, de "palpitar". O palpite é uma coisa que flui das pessoas. Há aqueles que vêem disfarçados com frases rodeantes no início, há aqueles outros que são mais diretos e não disfarçam a arrogância de certas pessoas em fornecer suas opiniões, há aqueles que sempre começam com sentenças do tipo: "não quero me intrometer, mas..." ou "se eu fosse você..." ou "conheço um caso que..."; enfim disfarces para dizer o que pensa, rezando para que você concorde e até mude de opinião!

Não importa o estilo, família gosta de palpitar. Quando então se trata do destino dos netinhos, então... Esses são o diamante de toda a família! É assunto para todos os almoços de domingo, quando cada um lembra dos "calsos" para demonstrar seus pontos de vistas.

É interessante como às vezes trocamos favores por palpites. Explico-me. Lembra quando nossos pais tinham que resolver algo, ou mesmo decidiram ir ao cinema e deixa seus filhos com os avós? Pronto, tai um favor pedido, e em troca um palpite de brinde. "Minha(o) filha(o), com você a coisa foi diferente. Você devia fazer isso ou aquilo..."

Enfim, o palpite é condição necessária e suficiente para se coexistir em família. O mais interessante de tudo é estar aberto para ouvir e perceber o que se está por trás dele. Não devemos brigar ou contrariar. Devemos perceber que aos avós cabem a tarefa de "deseducar", mas a nós cabe usar essa deseducação a nosso favor, ou seja, sabendo a hora certa de intervir e orientar como achamos que deve ser! O que acredito que precisamos evitar é deixar que nosso comodismo nos leve a situações onde perdemos o leme da educação de nossos filhos. Isso sim é um caminho sem volta!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Flamengo Hexa: e o futuro?

Ontem foi o dia tão esperado para nós torcedores do Flamengo: Hexacampeão!

Sou torcedor do Flamengo desde 1979, quando comecei a gostar de futebol. Tinha 7 anos, e comecei a torcer para o Flamengo por puro acaso. Como gostava daqueles "cards" que vinham naqueles chicletes enormes da época, calhou de vir mais jogador do Flamengo em minhas gomas de mascar. Como sou muito competitivo, queria mostrar que o time que tinha nas mãos era melhor que o Vasco do meu amigo de infância!

Coincidência do destino ou não, o Flamengo só ganhava na década de 80! Era o "dream team" do Brasil e a rede Globo só falava do Flamengo! E realmente, o time era o maior... Foi tetracampeão brasileiro só naquela década!

Veio a década de 90, e veio também o fim dessa era. Fora 92, quando foi mais uma vez campeão, o Flamengo vivia no meio ou quase no fim da tabela! Até hoje não sei como nunca caiu para a segunda divisão!

Ontem, aconteceu um milagre: Flamengo com Andrade como técnico, ganhou um campeonato! E parece ter sido algo mesmo sem explicação de como aconteceu (um milagre)! Sem organização, com uma dívida de 300 milhões de reais, com um time que fora alguns poucos jogadores (e não estou falando só de Petkovic, Adriano e Maldonado), possuia um elenco bem "meia boca", o flamengo ganhou o título. Ponto para o Andrade que mostrou ser um líder e tanto! Com humildade e perseverança, soube conduzir o Flamengo nas adversidades...

Ponto. Aqui paramos para falar de uma coisa que é marcante em nós brasileiros: ganhar na adversidade! Pra mim, ganhar na adversidade é ganhar uma vez e ter que esperar mais 17 anos para ganhar de novo (quem sabe?); é ganhar na raça, sem planejamento, organização ou metas; é atirar 1000 vezes para conseguir acertar uma e mesmo assim nem olhar para a flecha quando lançar!

Enfim, infelizmente, é a herança que carregamos conosco, que nos impede muitas vezes de saber para onder vamos, para onder queremos ir. Obviamente, não creio que os Alemães são modelo para ninguém. Viver numa sociedade tão grande e hiper-planejada deve ser uma loucura, não daria certo no Brasil, e não acho que dê realmente certo por lá. Mas por que não aliar o útil ao agradável? Por que não sermos mais responsáveis naquilo que fazemos, sem nóias, nem roubalheiras (como acontece no futebol hoje em dia do Rio de Janeiro e muitos outros estados)?

Acho que enquanto acreditarmos que o sofrimento de vencer nas adversidades pode ser o único a levar-nos ao prazer da vitória, o Brasil continuará a fomentar essas personalidades que nos comandam, fazendo-nos bonecos de interesses diversos...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Bebês vêm com manual?

Eu e minha esposa esperamos algum tempo para ter nosso primeiro filho. Pensávamos sempre no preparo psicológico necessário para criar um! Maturidade sempre foi nosso principal questionamento, mesmo sem saber até que ponto deveríamos esperar para estarmos maduros...

Enfim, decidimos e tivemos! Ele tá aqui nos enchendo de alegria. O que chamávamos maturidade, hoje acho que tem outro nome: renúncia. Ter filho é renunciar de um monte de coisas. Primeiro de nossa própria comodidade. Renúncia de nosso egoísmo, de nossa necessidade de atenção o tempo todo, de nosso tempo livre para fazer o que queremos e de mais um zilhão de coisas!

Ao longo desses 10 meses depois do nascimento de nosso pequeno, aprendi que renunciar apenas também não é suficiente. É necessário prestar atenção e pensar, pensar muito! Crianças até 1 ano não costumam falar, portanto precisamos ouvir, ouvir muito! Ouvir e aprender com os erros.

E foi assim que fomos lidando com o seu choro. Sua forma mais divina de comunicação. Dizem que bebês não vêm com manual. Mentira! Vêm, sim. Com tudo lá detalhado, estabelecido, inclusive com os famosos "troubleshootings" dos manuais técnicos. O único problema é que o manual está escrito na linguagem deles. DE CADA UM DELES! Como se tivéssemos que reunir todas as páginas ao longo do longo percurso de criação do pequeno! E claro que esses manuais são tema de pesquisas e mais pesquisas científicas. E métodos e métodos são criados para podermos traduzi-los para o nosso linguajar. Mas o pior de todos os métodos já criados chama-se Método Ferber.

Este tipo de tradução do manual do bebê visa transformar seu choro em um único significado traduzido, e chama-se "aprender a se virar sozinho". O objetivo é ensinar o bebê desde a tenra idade a se virar. Em outras palavras: "deixe-nos dormir a noite toda".

Confesso que durante essa curta jornada em que estamos sendo pais, pensamos várias vezes sobre isso: deixá-lo chorar para poder ensiná-lo a dormir. Ainda bem que nunca pensamos nisso ao mesmo tempo, e tinha sempre o outro para argumentar contra. E olhe que já passamos noites bem difíceis, como 99,99% dos pais deste planeta!

E nada foi mais recompensador que NUNCA termos deixado nosso pequeno chorar sem atendê-lo. Aprendemos quase a ler seus pensamentos. À medida que ele cresce, fica mais e mais fácil compreendê-lo.

Oh, que lástima essa realização de um método tão comportamentalista! É o culme do egoísmo de nós seres humanos, que queremos muitas vezes ter filhos para mostrar ao mundo, mas ao mesmo tempo não queremos aplicar a tão árdua renúncia de nós mesmos!

E assim, criamos psicopatas sociais. Aquelas pessoas que cortaram quaisquer enervações de seu corpo com o mundo, porque seu sistema nervoso não foi estimulado com carinho, apenas com "comportamentos"! Pessoas essas que acham que a vida é uma luta por sobrevivência onde os fins justificam os meios, e fazem quaisquer coisas para conseguir o que querem, porque o que impera é a lei do mais forte!

Pais, oh pais! Tentem ler o manual que seus filhos trazem! Não se deixem levar por um comodismo egoísta, que insistem em ensinar às crianças que devem se comportar como nós adultos. Só o amor incondicional pode salvar nossos filhos desses tão tortuosos caminhos e mais que isso, nos salvar de uma culpa tão grande que teremos que carregar quando começarmos a vê-los crescer, tornando-se pessoas sem o olhar compassivo ao próximo...

O choro é a maior forma de comunicação entre nós e nossos filhos. Se compreendemos seu choro, compreenderemos também sua linguagem quando eles começarem a falar. E será mais fácil orientá-los. Mesmo que falhemos por algum motivo na criação desses pequenos, ainda assim levaremos o coração mais leve, com uma culpa mais branda, por sabermos que fizemos tudo o que foi possível e que o resto foi escolha deles!

sábado, 31 de outubro de 2009

Ilusões perigosas

Conversando com um colega que não está passando uma boa fase, comecei a prestar atenção em seu discurso. Sim, discurso! Aquelas pessoas que não se entregam a tristeza pública, tendem a arranjar formas racionais de justificar as más fases. Acho que isso é melhor que dizer pra todo mundo que você está na fossa.

Mas voltando... o tal discurso do meu colega parecia uma forma de justificar a sua incompetência. E digo incompetência, sem ofensa alguma, uma vez que acho que se víssemos mais que somos incompetentes em várias coisas, viveríamos mais felizes! Enfim, o colega tentava arranjar 3 ou 4 explicações para demonstrar que tomou algumas decisões erradas no meio de caminho. Como conheço mais ou menos a sua história, percebi logo que estava tentando se convencer que apesar de ser muito bom em algumas áreas, foi "injustiçado" pelo "sistema".

O interessante dessa história toda é que anda, vira e mexe, usamos essas estratégias para nos sentirmos melhores! Não sei, acho que nosso sistema nervoso não suportaria tamanha dor de observar o quanto somos incompetentes. Acho que isso é típico das pessoas que se cobram muito. Naturalmente me incluo nessa categoria. E obviamente não podemos entregar os pontos a qualquer um...

O interessante dessa história toda é que parece que vivemos num espiral de ilusões, tentando nos achar melhores que outros quando obtemos sucesso, e piores quando fracassamos! Ilusões que nos levam sempre a buscar uma referência externa para o nosso mundo, onde não suportamos ser julgados, mas a todo momento precisamos julgar para nos percebermos e nos enxergarmos melhor. Ilusões que nos prendem a consciências adormecidas de nós mesmos! Enfim, ilusões perigosas pra nós próprios...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Pai de Madrugada

Desde que meu filho nasceu, ele dormia em meu peito, ainda em nosso quarto... Quando tinha cólica, ele dormia melhor em meu peito... Acho que era questão de anatomia: pequenininho, ficava todo tordo naquele abaulamento chamado peito de minha esposa!

O tempo passou, ele cresceu um bocadinho, e vi meu mundo cair quando ele chorou pela primeira vez em meus braços, na hora de dormir! Só acalmou quando foi para os braços da mãe. A partir dai, poucas vezes consegui colocá-lo para dormir, pois sempre chorava pela mãe: e só ela o acalmava! Claro que isso me fez ficar muito frustrado e um pouco ciumento. Não entendia o porquê dele não conseguir acalmar comigo.

Ele sempre riu das minhas brincadeiras, mas a mãe era o porto seguro. Com o tempo, fui me conformando e sabia que a relação parental era diferente com cada um dos pais. Afinal, a mãe nutria-o. Minha esposa sempre foi muito carinhosa e sempre me confortou, tentando me fazer compreender que esse é geralmente o caminho mais natural dos bebês...

E enfim, chegaram os 8 meses! Decidi firmemente, depois de uma demonstração de apego na hora da saída para a universidade, quando meu filho não queria mais me deixar ir embora, que iria passar a noite cuidando dele! Minha esposa já reclamava de cansaço, então uni o útil ao agradável!

Nessa noite, ele acordou praticamente de hora em hora. Mas cada vez que ele acordava e via o pai perto dele, parecia que transformava as primeiras feições de surpresa em contentamento. A primeira acordada foi muito rápida, voltou a dormir com alguns tapinhas no bumbum. A segunda foi mais intensa, estava com fome. E foi dando a mamadeira que ele olhou pela primeira vez pra mim com um olhar de surpresa em ver o pai naquela noite... Tomou toda a mamadeira e, novamente, depois de alguns tapinhas, voltou a dormir! E assim foi até as 06:20 da matina! Tudo escuro resolveu acordar para brincar, e ficou na cama se divertindo com o pai!

Foi um momento mágico! Nenhum escândalo costumas de todas as noites quando acordava sentindo falta da mãe! Naquela noite, era só eu e ele... E a manhã terminou com os homens da casa indo para a natação: dessa vez sem a mamãe. E não queria me largar mais, até no vestiário, quando ia me vestir para a aula.

Essa madrugada descobri duas coisas importantes: a primeira, quanto minha esposa abdicou de noites e noites para acalentar e nutrir nosso pequeno; sendo isso tão cansativo, sempre o fez com toda a dedicação, muitas vezes com dores nos braço. A segunda é que fazer nosso pequeno rir sempre foi fácil durante o dia, até dava gargalhadas com minhas palhaçadas, mas nunca tinha experimentado um sentimento tão intenso como senti quando fui "pai de madrugada"...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Papo de poeta

Enquanto crescemos fisicamente (desde bebê até a idade adulta) e durante o nosso processo de aprendizagem (principalmente na primeira infância), parece que cada um vai criando estratégias próprias para reter o conhecimento! Uns demoram mais, como se aquele determinado conhecimento tivesse que ser esmiuçado a tantas partes que fosse necessário passar mais e mais tempo a ver cada ângulo; outros são mais rápidos, como se soubesse de antemão que voltaria aquela situação mais uma vez na vida e os ângulo se abririam para eles.

Enfim, cada um tem um aspecto singular de perceber a vida, uns mais superficiais, outros mais perspicazes... O interessante nessa história é que quando nos tornamos adultos, algumas coisas já nos parecem intrínsecas. Com o passar do tempo, mais e mais prestamos atenção menos e menos. E a vida parece começar a perder a graça! Parece que precisamos, nessa altura, de mais e mais estímulos externos, enquanto menos e menos sentimos o conforto de caminhar com passos seguros.

Alguns não param para pensar nisso, já que suscitar dúvidas é fazer brandir as bases de uma pseudo-segurança. Mas como dizia Jung: "Tudo aquilo que não enfrentamos em vida acaba se tornando o nosso destino"! Há aqueles outros que preferem viver numa roda de auto-engano, imaginando que é mais fácil acreditar que um dia tudo será diferente (nem que seja por vias Extra-Terrestres!). Há aqueles ainda que se enlamam em considerações filosóficas tão pessimistas que terminam se tornando escravo de seu próprio estilo de vida! Por fim, ainda existem pessoas que aparentemente vivem com um sorriso plantado no rosto como se tudo tivesse bem. Nenhum desses tipos são ilibados da roda do progresso. Enquanto não nos dermos conta do que somos, sempre seremos empurrados em algum instante a pensarmos sobre a VIDA.

Acho que é aqui onde quero chegar. Por que precisamos criar artifícios para viver? Que raio de "Matrix" é essa que vivemos, que para nos sentirmos minimamente bem, precisamos continuar a fugir de nós mesmos? Acho que essas perguntas estão dentro do verniz social em que vivemos! Não devemos ser sinceros, pois as pessoas podem não ter capacidade para compreender nossa sinceridade. E não o sendo, acabamos também por não sermos sinceros com nós mesmos... Assim o círculo de enganos e auto-enganos vão se formando, quer dizer acho que mais seriam espirais!

Acho que essa conversa toda é meio "non-sense", ou talvez "semi-sense"? Para alguns devem fazer sentido, para outros deve ser apenas "papo de poeta", mas o que parece ser concreto nisso tudo é que cada vez mais vejo gente fugindo da sua própria realidade: Criam famílias mas as põem de lado pelo trabalho; usam suas inteligências para acumular bens e poder, mas não podem desfrutar dos bens e do poder apenas o utilizam em benefício próprio; criam amizades superficiais que parecem degenerar-se a um mínimo abalo no status social, e por ai vai... Pode ser "papo de poeta" mas tudo tem um preço e o destino parece criar condições para nos mostrar quando não nos enfretamos...